Histórias e Memórias por Dinamérico Aguiar

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#2 - O reporter esportivo por Dinamérico Aguiar

O guarda-chuvas nas costas e depois uma quase morte!

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Texto: Dinamérico Aguiar
Narração: Mari Aguiar
Edição de áudio e vídeo: Rico Santos

O REPÓRTER ESPORTIVO

Lá pelos idos de 1961 vivia eu em Ribeirão Preto, em jornada dupla. Durante o dia estava na Rádio Cultura, fazendo de tudo e, à noite, cursava o científico (era assim que se falava) no Ginásio “Moura Lacerda”, na Praça XV. 
Dentre as minhas funções, na rádio, cheguei a ser repórter esportivo. Talvez por influência de meu irmão, Luiz, um dos melhores que conheci, talvez pela necessidade de sobreviver e pagar a pensão, sei lá; eu fui, eu era, como diriam Raul e Paulo Coelho; e conseguia pegar o microfone volante e dar as informações necessárias de Botafogo e Comercial, para as transmissões esportivas. E quando eu falo microfone volante, entendam aquele enorme BTP, um peso danado para o meu franzino corpo. 
Certo dia, um jogo do Botafogo em Piracicaba, contra o XV. Dinheiro curto, lá fomos no carro do Jovino Campos, que era o comentarista da PRA-7, além de gerente dos Correios. Era meu batismo em viagens e ele levava o pessoal da rádio dele e da Rádio Cultura, apertados em seu Ford conversível. O campo do XV (não se poderia dizer, estádio), era aquela coisinha pequena e os repórteres ficavam praticamente encostados no alambrado. Lá, também, do outro lado, a torcida inflamada. Eu dizia “foi impedimento”, e alguém atrás de mim enfiava o guarda-chuva nas minhas costas e urrava, foi não, “viadinho”. E eu tentava ir mais para a frente para fugir dele, lá vinha o bandeirinha a pedir para me afastar; uma tortura, e nunca consegui entender o que fazia um merda daqueles, com um guarda-chuvas, no campo de futebol.
Fim de jogo, jantamos, noite caindo e pegamos o carro de volta, naquele aperto. Eu, no banco de trás, era o cara do meio, espremido, o locutor de um lado, o comentarista de outro. Na frente com o Jovino, outro comentarista. Viagem de volta a Ribeirão, bate o sono. Eu, em meio àquela escuridão da estrada, dei algumas cochiladas. O pessoal, já mais experiente naquelas viagens, tinha tudo combinado. Dormi, eles não. De repente, uma brusca freada e todos gritam AHHHHHHHHHH. Acordei me imaginando embaixo de um caminhão, já morrendo, e quando dei por mim, estavam todos rindo muito, com a minha cara patética, coração a dois mil. Era mais um trote, dos muitos que o Jovino pregava, com seus amigos, naqueles que eram novatos na história.
Nunca mais dormi em viagens, nem de carro, nem de ônibus, nem de avião. Por mais que seja o tempo de viagem, não durmo. Quando a sonolência vem vindo, me lembro dos gritos e da freada. E não tem psicólogo nem psiquiatra que consiga me demover da ideia de não dormir. Não dei sequência à carreira de repórter esportivo, optei por escrever e dirigir e assim foi; o mundo não perdeu lá grande coisa, mas jamais esquecerei das bicadas do guarda-chuvas nas costas nem dos gritos e da freada do carro do Jovino. Esta viagem para Piracicaba e o velho estádio do XV, não me saem da lembrança.

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